Acolher é Resistência: Reflexões sobre cuidado em meio à violência

Imagem gerada com auxílio de IA

A ideia de escrever sobre acolhimento surgiu durante minha participação no programa de fortalecimento de lideranças chamado Indivíduos Inspirados, da organização Tearfund, entre 2021 e 20231. Como vocês podem imaginar, esse foi o período pós-pandemia de COVID-19, quando os efeitos do adoecimento emocional, causados pelas perdas e pelo isolamento social, ainda reverberavam em todas as direções. Todo mundo falava sobre estratégias e práticas de autocuidado (individual) e sobre espaços de acolhimento para grupos mais vulnerabilizados, que seriam os mais afetados pelos acúmulos das desigualdades sociais a médio prazo.

Esse contexto me inquietou profundamente — em níveis emocionais, políticos e espirituais. Vi, na oportunidade de participar de programas de apoio às lideranças, o desdobramento de um compromisso: partilhar uma reflexão sobre o acolhimento como prática social essencial em meio às injustiças que vivenciamos no país. E também reforçar um lembrete: a cultura da violência nos impõe uma postura acolhedora como estilo de vida, não como algo pontual.

Mas partilhar essa reflexão não foi fácil. Embora minha profissão carregue o nome do serviço como objetivo fundante e razão de ser na sociedade, eu ainda não me sentia autorizada a falar sobre o tema. Talvez pelos impactos do racismo na minha autoestima, pelo medo das críticas, ou porque a escrita sempre foi um lugar de sufoco e não de desabafo — mesmo que a academia tenha me proporcionado acesso a muitos conhecimentos. Para além de tudo isso, precisei (e ainda preciso) lidar com a autocrítica e com o imperativo de ser honesta comigo mesma: se nem eu consigo ser acolhedora o tempo todo, como posso falar disso para outras pessoas?

Dessa autorreflexão, surgiu o passo mais difícil: me humanizar ao aceitar as contradições de ser uma pessoa. Isso mesmo: sou uma pessoa. E busco me dizer e me lembrar disso constantemente, porque a cultura patriarcal e misógina tenta me convencer do contrário — de que sou apenas serviçal, uma “sub-pessoa” feita para servir aos outros. Acredito que essa mentalidade desumanizadora da misoginia é um dos traços mais diabólicos e infernais dos nossos tempos, pois impõe dores intencionais a vidas valiosas.

Foi então que o caminho diante dos meus pés começou a se formar. E algumas verdades foram me libertando da obrigação de “ser perfeita”. Afinal, falar de acolhimento não é romantizar relações ou pintar um mundo cor-de-rosa. Pelo contrário: refletir sobre acolhimento é, antes de tudo, pensar nas vulnerabilidades da nossa condição humana, aceitar o convite da humildade, do não-julgamento e reconhecer que, como pessoas, somos limitadas e limitados. Somos interdependentes.

Acredito que, se quisermos sonhar com um mundo mais justo e igualitário, precisamos reconhecer que, mesmo a contragosto, precisamos uns dos outros. Precisamos ouvir e dialogar. Precisamos nos conhecer e estabelecer limites, comunicar com honestidade. Precisamos nos relacionar com afeto e compaixão, mesmo quando não fomos educadas e educados para isso. Porque, ainda que aprendamos todas as técnicas de autopreservação e autocuidado, se essas práticas não se espelharem em uma ética generosa, o elo do bem comum se fragiliza perigosamente.

E sobre tudo isso, tenho dado apenas alguns passos.

Escrever sobre acolhimento me fez lembrar da minha base de valores e fé, e dos aprendizados recentes ao viver em comunidade e na luta social: não sou superior a ninguém, nem inferior a ninguém. Sou plena em minha dignidade e humanidade — e compreendo agora que isso é a base do mandamento de Jesus: amar ao próximo como a mim mesma.

Esses são alguns aspectos de um processo de cuidado pessoal básico que durou meses lidando com bloqueios emocionais — criativos e produtivos — decidi que aquilo que havia conseguido escrever era suficiente, ainda que sentisse ser insuficiente. Afinal, quando foi que eu desejei ter a resposta final para tudo? Quando quis determinar que a minha percepção fosse a última palavra? Aliás, confesso: sempre me sinto aliviada quando sou voto vencido em uma deliberação coletiva…

Quero acrescentar, a importância das relações generosas — e até mesmo das conflitivas — vividas com pessoas da comunidade de fé e do ativismo. Esses vínculos me ajudaram a identificar e nomear posturas, comportamentos, e a me reconhecer mais profundamente em minhas luzes e sombras. Trouxeram aprendizados sobre o poder do tempo, sobre os efeitos persistentes das injustiças históricas e sobre os processos de cura nas tradições de cuidado.

Assim, consegui encontrar contentamento em partilhar, por etapas, um processo pessoal que se dá de forma coletiva — a partir de experiências individuais, comunitárias e sociais. O livro eletrônico sobre acolhimento foi lançado no durante meu aniversário, quando eu estava na minha terra, com a minha família — revivendo todas as memórias que me faziam sentido. Uma família de sobreviventes das violências… raciais, de gênero, urbana, econômica, ambiental…entre tantas.

Da menina sarará e favelada na igreja de bairro à acadêmica pós-graduada, fugitiva e migrante, que vivenciou tantas formas de acolhimento e de humanização em meio às violências estruturais e cotidianas. Ser acolhida salvou minha vida — diversas vezes.

Referências:

Ebook – Acolhimento: um olhar para a vulnerabilidade social (https://a.co/d/fy4xbJq)

Livros – O livro do Perdão e Deus não é cristão: E outras provocações (Por Desmond Tutu)

  1. Eu também participei do Programa de Aceleração de lideranças femininas Marielle Franco (2020-2021) criado pela ON Fundo Baobá e que contribuiu para minha segurança alimentar e saúde durante a pandemia do COVID-19. ↩︎