Por que o texto da Mulher Samaritana (João 4) não se tornou uma das principais chaves hermenêuticas para a teologia da libertação das mulheres em nossos tempos?
Essa pergunta tem me acompanhado em cada etapa do meu processo de pesquisa e reflexão — seja no campo acadêmico, político ou espiritual. Ela reaparece quando leio a Bíblia com atenção crítica, e especialmente quando compartilho conversas sinceras com outras mulheres de fé.
(Se você ainda não leu o texto anterior, recomendo voltar lá para se situar melhor.)
Sim, há muitas mulheres na Bíblia que são referências inspiradoras. Maria Madalena, por exemplo — apóstola dos apóstolos, anunciadora da ressurreição — é um grande ícone de protagonismo feminino. Mas ainda assim, me pergunto: por que não há um diálogo entre Jesus e Maria Madalena como aquele que ele teve com a Mulher Samaritana?
Movida por essa inquietação, comecei o ano buscando escuta e orientação. Procurei as profetisas do meu tempo. Mulheres que admiro profundamente: Lílian Conceição, Maricel Mena López, Silvia Regina, Odja Barros. Elas me acolheram com generosidade e sabedoria. E nossas conversas foram muito além da pesquisa — alimentaram minha fé, como aquele encontro à beira do poço.
O que compartilho aqui são “conclusões inconclusas”, nascidas de uma mente inquieta e de um coração com fome e sede de justiça. Com base em evidências históricas, culturais e antropológicas, e inspirada por leituras feministas e decoloniais, tento me aproximar de algumas respostas possíveis para a pergunta que não me larga:
Por que o texto da Mulher Samaritana não se tornou central na teologia da libertação das mulheres?1
Talvez porque:
- A história dessa mulher revela uma autonomia intelectual feminina, algo profundamente subversivo. Ela argumenta, questiona, interpreta. Ela pensa por si — algo que muitas tradições ainda tentam negar às mulheres.
- Sua ancestralidade étnico-racial não é apagada, nem demonizada. Ao contrário: é dignificada. Jesus vai até ela. Ele atravessa fronteiras, geográficas e simbólicas. É ela quem permanece em seu território.
- A narrativa não reforça o estigma da “culpa feminina” que tanto interessa às estruturas patriarcais. Ao contrário, ela desmantela essa lógica, ao mostrar uma mulher que é ouvida, respeitada e reconhecida em sua inteireza.
- Existe uma tentativa histórica de suavizar o racismo e os conflitos étnicos da tradição judaico-cristã. Mas este episódio aponta justamente para a urgência de abordarmos a justiça de gênero e raça como parte essencial da ética cristã.
- Por fim, o diálogo entre Jesus e a Mulher Samaritana revela uma liberdade espiritual que vai além da religião institucional — essa mesma que tantas vezes tentou controlar nossos corpos e nossas vozes.
Essas perguntas — e as respostas que esboçamos — não são fáceis. Elas podem provocar desconforto, resistência, até raiva. Podemos sentir vontade de voltar à velha explicação: “a Samaritana era uma mulher perdida que encontrou em Jesus a salvação”. E ponto. Mas a verdade é que essa história guarda muito mais camadas e complexidades.
Ao ouvir minhas orientadoras — mulheres teólogas, biblistas, mestras da escuta e da sabedoria — percebemos que o evangelho de João nos oferece aqui um texto riquíssimo. Um texto com implicações espirituais e éticas profundas, que muitas igrejas evitam explorar, por medo do que ele pode revelar.
A teologia feminista e decolonial já nos mostra há tempos que a escolha dos textos bíblicos que ganham destaque não é neutra. Há uma vontade política por trás disso. Alguém decide quais passagens são mais “importantes”, e quais podem ser esquecidas ou distorcidas. E, quase sempre, a dignidade e a diversidade das experiências femininas são deixadas de lado — ou empurradas para os papéis de sempre: submissão, sacrifício, silêncio.
Nós, mulheres cristãs afrodescendentes no Ocidente, raramente recebemos incentivo — nem teológico, nem pastoral — para refletir profundamente sobre textos como este. Seguimos sendo ensinadas a pensar nossas vidas apenas em termos de sobrevivência, apagando nossas raízes afro-indígenas, negando nossa ancestralidade.
Este é um texto pessoal. É político, emocional, espiritual — e, sim, também é acadêmico, no melhor sentido da palavra. Há muitas camadas a serem exploradas aqui. Camadas que dizem respeito às nossas vidas reais, nossas histórias, nossas lutas, nossas alegrias.
Meu desejo ao escrever isso é contribuir com a promoção da equidade de gênero e raça na reflexão teológica e social — e, acima de tudo, reivindicar o direito à memória e à ancestralidade negra como parte essencial da fé que professamos.
E o que podemos fazer, irmãs? O que nos motivará, dia após dia, a buscar a verdade com a mesma urgência com que buscamos sobreviver — com comida, roupa, teto, saúde? Será que da mesma força que brota das orações, das canções e dos louvores que nos fazem chorar; da mesma empolgação em servir, em cuidar, em amar os necessitados… será que o Amor que nos alcançou e nos fortalece na luta contra o racismo também não pode nos guiar de volta?
De volta ao poço. De volta às nossas origens.
Será que não é tempo de deixar o cântaro — aquele que carregamos por tanto tempo — para que outras também possam tirar sua própria água? E, assim, voltarmos para nossa comunidade, para nossa memória, para nossa terra interna e testemunhar: há verdade em nossa história. Há dignidade em nossa ancestralidade.
- Essa pergunta, que parte de um pressuposto de que a passagem da Mulher Samaritana não ser central é fruto de um levantamento bibliográfico em curso (pesquisa Capes 2022-2026), e que considera a recorrência da passagem em periódicos e textos relacionados as mais variadas correntes da teologia, mas especialmente à perspectiva libertária ou política. ↩︎
Referências
Inspirada nas apresentações em:
O Simpósio “Da Contemporaneidade a Antiguidade: diálogos sobre o presente, passado e futuro” – Sessão XV – Mulheres Negras e a Bíblia: Diálogos entre o Passado e a Teologia Contemporânea: https://www.youtube.com/watch?v=0NFpEA4tUts&t=6351s
A questão étnico-racial nas Ciências da Religião e na Teologia: https://www.youtube.com/watch?v=RyYVzRtG0p8&t=2722s
