A Samaritana, somos nós… (parte 1)

Evangelho de São João 4: 1-42

Pelo que me lembro, comecei a ler a bíblia com 10 anos de idade. Lia aquela versão de bolso azul e letras douradas, que a gente encontrava em toda repartição pública e que as pessoas mantinham aberta no Salmo 91 ou Salmo 23, na estante da sala como uma espécie de amuleto. Mesmo sem compreender aquela linguagem tradicional, formal e arcaica, havia uma passagem que me comovia bastante: a passagem da mulher samaritana. 

Eu não conseguia ser indiferente ao encontro de Jesus com uma mulher discriminada, afinal, embora menina eu sabia que tinha nascido mulher. Então eu pensava que aquela mensagem era sobre mim também. Na minha ingenuidade, pensava que as mulheres não eram mais discriminadas por causa daquele comportamento [antigo] de Jesus.

A passagem da mulher Samaritana fortaleceu em mim a fé em um D’us humanizado que salvava, curava e era amigo dessas mulheres marginalizadas.

Amigável. Atencioso. Libertador. Reconciliador. Amoroso.

Já ouvi tantos sermões e interpretações dessa passagem. Qualquer teólogo ou pastor sério, reconhece o impacto social que o comportamento de Jesus ensinou naquele acontecimento. Uma história profunda, do diálogo entre um mestre rabino e uma mulher comum, ambos de grupos étnico-raciais em conflito histórico. O escritor do livro de João é explicativo quanto ao peso social dessa diferença sociocultural entre Jesus e a Samaritana.

A força libertadora dessa mensagem e as pesquisas no campo das mulheres negras na teologia me motivaram a escrever algumas linhas aqui. Por isso, quero partilhar como reflexões surgidas de um acúmulo de escutas, devocionais, leituras, conversas informais e estudos independentes e pesquisa acadêmica sobre teologia e mulheres. Com todo respeito a sistemática da teologia histórica, quero aproveitar a liberdade que há na experiência de entrar em contato com a história desse encontro e imaginar mais aprendizados possíveis. 

Agradeço a oportunidade do acesso que desfrutei à hermenêutica (interpretação) feminista da bíblia, que ampliou e aprofundou minha compreensão dos textos do livro Sagrado para os cristãos. Sem intenções de exegese do texto, pois confio esse expertise para as amigas teólogas feministas profissionais que são fonte de inspiração e sabedoria para a cura e libertação das mulheres cristãs ao redor do mundo.

Outro agradecimento vai para as teorias feministas negras e latinoamericanas que me ajudaram a pensar o poder de autodeterminação e autodefinição que as mulheres negras desenvolveram ao longo de suas resistências ao processo de escravização e colonização da sua espiritualidade aqui nas Américas. Apesar da imposição e convencimento de uma nova fé que não era a fé de nossos antepassados, seguimos ressignificando os acontecimentos e mantendo a espiritualidade como fonte fundamental para suportar os horrores do racismo e do sexismo, até mesmo nas igrejas.  

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Para mim, a passagem A mulher Samaritana é uma importante “chave hermenêutica” para aprendermos sobre a ética cristã numa perspectiva étnica-racial. A ferramenta da interseccionalidade nos ajuda a interpretar e transmitir os acontecimentos considerando o valor de cada marcador social (gênero e raça/etnia) que atravessa a vida da mulher Samaritana. Assim, situa na teologia a perspectiva das mulheres negras na diáspora e das mulheres originárias. A partir disso, quando eu leio a passagem, algumas reflexões se destacam:

A Samaritana não tem nome, mas origem. Sua origem étnica-racial é destacada na história narrada em vez do seu nome ( autonomia e individualidade como pessoa). Sabemos o quanto é importante sermos chamadas pelo nome. Inclusive, essa é uma característica patriarcal da bíblia de ocultar o nome de muitas mulheres importantes. Até hoje é assim. Quantos nomes perdidos, esquecidos, ocultados mesmo diante de grandes feitos?! Muitas de nós somos definidas e estereotipadas pelos outros sobre nossa origem de território, nossa profissão, nossas dores… dificilmente nos reconhecem por quem somos particularmente.

Entretanto, a sua origem revela a história de um povo. Ela carrega no corpo as informações genéticas, físicas e culturais de várias vidas que foram grandiosas e importantes em seus feitos! Não podemos fugir da históra que nosso corpo, cabelo, tom de pele, expressões faciais e corpóreas informam o tempo inteiro, onde quer que formos. Assim, a origem da Samaritana informava que seu povo era ‘misturado e miscigenado’… (ao longo da bíblia vemos o quanto a questão da pureza étnica era um recurso ‘autopreservação’ (?) do povo de Israel e elemento de inúmeros conflitos ao longo da sua história). Nos tempos de Jesus,  essa discriminação já estava naturalizada e institucionalizada nas práticas do povo judeu.  

Podemos refletir como essa discriminação racial acontece com nós mulheres negras e indígenas (afroindígenas) até os dias atuais. De um lado, nossa origem racial nos impede de desfrutar uma cidadania plena na sociedade, e de um ponto de vista religioso, somos subestimadas em nossa maneira de cultuar pois há estereotipações e ridicularizações (especialmente para as que são pentecostais e neopentecostais, por exemplo, que na maioria são mulheres negras (pretas e pardas). 

Enquanto a leitura do texto segue, me deparo com o cenário do cotidiano, no espaço público: o encontro no poço de água. Lembro como as experiências de manutenção/reprodução/cuidado da vida, no espaço privado ou público,  são aspectos sempre relacionados e atribuídos ao gênero feminino. Apesar de qualquer situação de discriminação e preconceito seguimos cuidando de tudo e todos – de forma voluntária ou imposta/compulsória. Estamos socialmente definidas a seguir cuidando… como um poder ancestral ou como uma exploração de nossa potencialidade humana.

Me conforta saber que é nesse espaço do cotidiano que o encontro com Jesus acontece. Não foi na sinagoga, nem no templo. Foi à beira do poço. Um espaço onde no passado Deus se revelava aos antepassados na bíblia. Jesus se revela como salvador em nossa cotidianidade através do diálogo! A espiritualidade que se manifesta no dia a dia. Essa espiritualidade que cria sabedorias de resistência às discriminações e sujeições advindas do racismo e do machismo nas pequenas e sutis violências do dia a dia.

Além disso, 

Essa memória de povo (mestiço, miscigenado) fundamenta sua fé. A promessa de Deus era através do poço sempre havria encontro (com o Sagrado) e água para acabar com a necessidade (a sede). 

Na memória ancestral: No diálogo com Jesus, a Samaritana demonstra respeito e preservação da memória da construção da fé de seu povo (mestiço, miscigenado).  Ela sabe a origem da fonte que lhe dá sustento. Sabe que o poço é a materialização de uma relação de longa tradição de seus ancestrais/antepassados com a espiritualidade, com o próprio Deus Criador. O poço foi e continou sendo símbolo de uma tecnologia de preservação da vida.

A espiritualidade vivida e refletida: Ao identificar que  está diante de um profeta ela não se intimida em expor seus saberes, debater e refletir práticas de fé (local de adoração, monte ou templo). Ela então evidencia a diferença cultural que gera um ponto de conflito entre judeus e samaritanos: o Lugar da Adoração.  (continua)

Até aqui, limitar as caraterísticas da mulher Samaritana aos preconceitos e discriminações que ela sofria é diminuir o seu poder pessoal. Segundo a Teologia Feminista Negra (e a Womanist Theology), a experiência de fé das mulheres negras é atravessada pelo racismo que nos fere e afeta na carne, no corpo e no cotidiando. Definitivamente o racismo não pode determinar nossa fé. 

Na verdade, a experiência do racismo é um contexto que denuncia o quão distante de Deus as pessoas estão e para a maioria de nós é onde Deus faz o milagre e muda nossas vidas através da superação, da graça e da perseverança da oração. 

Em seu diálogo com Jesus a mulher Samaritana demonstra autodeterminação e autodefinição – para referenciar as irmãs bell hooks e Patrícia Hill Collins! Ela sabe de onde vem. Ela conhece a história do seu povo. Ela conhece os aprendizados que recebeu aos quais preserva esperança e fé. 

O diálogo é profundo e poderoso. No diálogo Jesus ouve e a mulher fala, e vice versa. Ambos se compreendem. Essa conexão entre nós e o Sagrado é transformadora e definidora de quem somos quando sabemos de onde viemos! O contato com o Jesus não apagou a identidade e os aprendizados da Samaritana, mas a partir de sua consciência racial e ancestral, oportunizou experimentar a libertação da sua prática de fé.

[continua…]

Referências

MARÍCIA LOPES GALVÃO. O ENCONTRO DE JESUS COM A SAMARITANA (Estudo bíblico-teológico de Jo 4,1-42). Dissertação do Programa de Pós-Graduação em Teologia PUC-RS. 2005.

LUCÍA Weiler. Jesús y la samaritana. RIBLA. San Jose, Costa Rica, 1993.

bell hooks. Tudo sobre o Amor: novas perspectivas. 2021.

PATRÍCIA HILL COLLINS. Pensamento Feminista Negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Boitempo. 2019.

Stephanie Y. Mitchem. Introducing Womanista Theology . 2002 

Participação nos treinamentos da ONG Diaconia, na Câmara de Gênero com a meidação da teóloga e pedagoga Odja Barros (2014-2016). Participação no GT de Gênero Festival Reimaginar (2016) mediado pela teóloga Nancy Cardoso (2016).