
Visitei minha casa, em Recife(PE). Na ocasião, fui com minha mãe à casa da minha tia mais velha, na altura dos seus 70 anos. Eu queria muito vê-la porque ela é uma das minhas referências de fé e sua condição de saúde estava bastante debilitada. Na minha infância, minha tia me contava suas histórias de vivência com a religião cristã e com as espiritualidades não cristãs. Eram relatos emocionados e cheios de nostalgia. Além disso, ela tinha o dom da oração e do benzimento – coisas que faziam dela uma referência de saúde na família e na vizinhança durante longos anos de sua vida.
Minha tia, mesmo vivendo sob intensa violência doméstica, demonstrava uma resiliência e fé inacreditáveis. Essa fé que suporta o mal me era entristecedora. Essa contradição sempre foi motivo de incômodo para mim. Mesmo antes de qualquer formação crítica acadêmica ou política, sempre me estranhou como Deus não fazia o milagre da libertação na vida dela se ela cultivava tanta fé… E ela, sempre foi tão paciente com as pessoas e tão razoável com as palavras, como uma mulher sábia que guardava muito segredos não se rebelava contra aquela situação.
Com o tempo compreendi algumas coisas… explicações que nem a fé religiosa, nem a saúde davam conta. Coisas que só a compreensão sobre injustiça social conseguiriam explicar.
Na condição de mulher de fé livre, minha tia se converteu ao protestantismo evangélico pentecostal já madura, na casa dos seus 50 anos. E, a partir desse momento, vivenciamos o tabu da espiritualidade feminina negra. Nada mais era dito ou partilhado em relação aos saberes antigos que ela sabia e guardava da sua antiga fé. Tais coisas eram do passado. O passado sem Deus (segundo a igreja cristã). Não podiam ou precisavam ser mencionados, para não corrermos o risco de sermos interpeladas por algum saudosismo ou risco de atribuir alguma credibilidade àquelas práticas que a igreja evangélica julgava como feitiçaria ou bruxaria.
As memórias eram um tabu diante das verdades eternas da igreja. As verdades que diziam que tudo que ela havia acreditado e vivido no corpo era mentira e era do diabo.
No entanto, ela e minha mãe não podiam negar os efeitos reais dos poderes da magia. Elas sabiam que era uma força real com influência fluída na vida das pessoas. Os inúmeros testemunhos de conversão de pessoas que eram poderosas na feitiçaria reforçavam uma cultura do tabu sobre o assunto. O silêncio e o esquecimento impostos pelas igrejas evangélicas pentencostais às mulheres “ex-feiticeiras” ou “ex-macumbeiras” não conseguia descredibilizar a existência desse poder real.
Esse esquecimento imposto requer dessas mulheres que troquem os significados que elas atribuem aos sinais do corpo à influência única de Deus ou ao Espírito Santo. Ou seja, nada do que se percebe ou vê, ou sente é de uma origem corpórea própria, mas, advém de Deus como um ser exterior. As sensibilidades de nossos corpos estariam a serviço do poder de Deus.

Nesse cenário, é possível ver o sucesso dos dispositivos do patriarcado. Através do discurso religioso, medo e culpa são usados para reprimir memórias do real, memórias físicas, afetivas e corporais. Memórias de que somos natureza.
Essa repressão foi violenta. E é violenta porque causa um dano real à memória e à livre expressão dessas mulheres de descedência indígena e africana. Essa repressão é ensinada através da incorporação de disciplinas explicadas em muitos sermões, cultos de doutrinas e lições bíblicas. Um corpo de mulher cristã não disciplinado é um corpo similar a uma feiticeira ou bruxa.
Além disso, o discurso religioso impõe um modelo de espiritualidade feminina que reprime e combate dimensões da nossa própria humanidade. Impõe às mulheres afrodescendentes um modelo de ideal de feminilidade [branca] impossível de se atingir, gerando constrangimento e sentimentos de insuficiência e culpa. A solução dada pela própria teologia ocidental [branca] é a negação de si: negar quem somos (identidade de descendência indigena e africana) e o que sentimos (sensibilidades, sensorial, corpo) para sermos exclusivamente um “objeto” do poder de Deus.
Veja. Nos tornamos canais, objetos e instrumentos de Deus. Somos objetificadas e não mais seres à imagem do Divino e parte do divino com habilidades e sensibilidades próprias da ser parte da espiritualidade – até porque acreditamos que não somos apenas corpo material…
É claro que essa abordagem não é estática e única. Há uma outra abordagem predominante que é a da “filha do Pai” ou “herdeira do Trono”. Quando surge a necessidade de validar autoestima e aplacar as angústias femininas advindas da vida social, aciona-se essa outra dimensão do ser mulher religiosa que é a da figura da “dependente”(a filha, a que é cuidada e nunca abandonada). tocando na dimensão da vulnerabilidade submetida às consequências da cultura machista e patriarcal que é da solidão das mulheres sobrecarregadas (ou exploradas).
Esse deslocamento de abordagens é um reconhecimento de que a identidade da “mulher cristã” não é única. Temos diferentes papéis sociais. Ninguém aguenta se doar tanto se não houver escapes que despressuriza a tensão de ser “canal, meio e instrumento” o tempo inteiro. Ainda mais quando a maior parte de mulheres evangélicas vem de uma classe social que é exposta a desigualdade econômica e violência urbana e doméstica cotidianas…
Mas, retornando a reflexão sobre irmã ex-macumbeira e o silenciamento das memórias de fé de matriz indígena e africana precisamos nos preocupar com o quanto do silenciamento que nos é imposto nos impede de honrar nossa ancestralidade feminina africana e resgatar nossa identidade de mulheres livres. Minha tia e minha mãe nunca experimentaram a liberdade originária de serem mulheres livres, tanto das situações de violência que viveram no ambiente doméstico quanto economicamente para se sustentarem nesse sistema injusto…
Para as que buscam no conhecimento um caminho de autonomia, estudar a história de Dandara, Acotirene, Teresa de Benguela e tantas outras grandes líderes negras afrobrasileiras e ignorar os lugares e práticas de espiritualidade dessas antepassadas que também as constituíram como mulheres de força, fé e liberdade me parece bastante contraditório – mesmo sabendo que o contraditório serve para reflexão. E mais. Parece um senso de lealdade àqueles que construíram uma teologia racista que torturou tantas das nossas ancestrais pelas quais hoje reivindicamos justiça e reparação.
Apois, que a reparação também comece em nós. Na nossa mente. Na nossa boca. Na nossa memória.
Um dia, compartilhando dessas inquietações com algumas parceiras no movimento negro evangélico, consegui resumi assim as falas:
“não preciso saber essas coisas para ser uma mulher negra consciente, para saber que sofro racismo e que preciso lutar contra ele”
“eu não sinto falta de saber como minhas antepassadas viveram a fé delas”.
“minha fé cristã é uma escolha mesmo sabendo do passado da minha avó e mãe na religião de matriz africana…”
Eu tenho me espantado com o conformismo diante da ausência de memória. Depois, lembrei que eu mesma passei anos sem considerar esse aspecto da vida espiritual e social como relevante. Foi através da escuta coletiva, da leitura crítica, da postura de reflexão constante e a observação atenta que eu consegui ouvir a voz do meu coração: “A verdade libertará, irmã Vanessa.”
A memória que gera consciência não nos deixaria esquecer de que a liberdade que desfrutamos hoje é fruto de lutas de sangue das “ditas” macumbeiras e feiticeiras de ontem. Que a violência de ontem segue sofisticada hoje. Que a fé cristã que “escolhemos” no hoje é quase inteiramente controladora dos modos de ser dos corpos de nós mulheres negras. Tantas violências comprometeram nossa autonomia radical de escolha…
As memórias de nossa herança africana e indígena foi quase inteiramente comprometida pelo cristianismo ocidental e branco. O que temos de resultado: o medo de falar, de perguntar e saber, de visitar e conhecer, de ouvir as mais velhas… temos medo da solidão e da rejeição pelo receio de sermos estereotipadas, excluídas ou descredibilizadas na fé.
Na visita rápida à minha tia, contei a ela que estava estudando religião e as mulheres negras. De como as mulheres vivem uma fé que está acima da religiosidade. Contei que descobri muitas coisas que não foram contadas na igreja, nem na escola. Que descobri que a fé não pertece a denominações religiosas e que o dom que sentimos nos nossos corpos é uma dádiva divina que vive em nós. E então perguntei sobre as ervas de benzimento, que eu não lembrava mais… e ela, meio desconfiada como quem cochicha me contou os nomes de todas as que ela utilizava para ajudar as pessoas…seus nomes e suas funções…
Não escrevo para defender algum purismo religioso. Ou para dizer que não temos autonomia em nós mesmas como humanas. Aponto que nossa liberdade [conquistada pelo amor na luta, suor e sangue de nossas antepassadas] nos informa sobre o racismo religioso e intolerância religiosa que não temos lido, ouvido e falado suficientemente.
Mesmo assim, nós estamos livres.
Como cristãs negras evangélicas, ainda precisamos voltar e resgatar aquilo que ficou para trás e reconhecer a soberania da espiritualidade Divina em nossa própria história de povo africano e indígena. Das memórias que nosso corpos nos informam, toda vez que estamos diante do espelho ou diante da polícia e dos poderosos.
Não podemos deixar no esquecimento a grandeza de nosso pertencimento de uma espiritualidade livre e natural.
E assim, a reparação da justiça racial que caminha a passos tímidos, ao som do nosso silêncio ou sussurros, à sombra do nosso medo, à sombra do esquecimento das memórias que não foram mais contadas e transmitidas de geração a geração pelo tabu da fé cristã branca encontrará força para nos tornarmos quem somos pela memória das ações de amor daquelas que nos antecederam e foram perseguidas por simplesmente acreditarem diferente.

As reflexões desse texto interagem com o conteúdo do livro Introducing a Woman Theology parte II do livro; palesta da Carolina Rocha na palestra Bruxas Pretas Sesc Vila Mariana (novembro/2024) e no curso de escrita negra no Sesc Pompeia (julho/2024); o Texto da Racismo e sexismo na sociedade brasileira da pensadora Lélia Gonzales; o livro Tornar-se Negro da psiquiatra e psicanalista Neusa Santos; e Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano da Grada Kilomba espcialmente capítulo 9 e 13; com conversas informais com lideranças da Rede de Mulheres Negras Evangélicas; Com diálogo com membros do terreiro Ilê Axédo Ventos em Igarrasu/PE; e com os textos das autoras brasileiras do livro Teologia Feminista Negra organizado pela Cleusa Caldeira;;
