A última parte desse texto será dedica a refletir sobre uma experiência pessoal (e coletiva) bastante comum na vida de mulheres negras afrodescendentes evangélicas: a violência religiosa racista. Precisamos invocar a coragem para falar sobre violência religiosa contra as vivências espirituais das mulheres negras.
Aprendemos desde tenra idade que essa dimensão não está aberta a discussões. Mas, esse assunto não pode seguir sendo um tabu entre nós. Entre as diferentes formas de violências que o sistema colonial nos infligiu, essa me parece ser a menos abordada entre nós, mulheres negras evangélicas. Percebo que algumas resistências ao abordar o tema nos toca no aspecto sensível do sagrado, e da nossa relação com o divino, no nosso canal direto e irrevogável com D’us. Diante da solidão social e afetiva que sofremos, Deus (o Sagrado) é o único companheiro real na vida da maioria de nós mulheres negras.
Acreditamos que em Jesus recebemos a salvação/remissão de pecados e que a “antiga vida” (de saberes de herança africana) deve ser esquecida ou ser renegada. Na verdade, aprendemos que esse é o caminho para experimentarmos a vida eterna… No entanto, quando não preservamos com coragem e verdade os saberes de nossa herança africana, reforçamos tudo o que a igreja cristã ocidental abordou mentirosamente sobre a fé de nossos antepassados. Seguimos vivendo na ilusão adoecedora da nossa autoimagem enquanto pessoas negras.
A posição de servir em liderança me proporciou a benção de ouvir muitas mulheres negras. Nos últimos anos de convívio entre mulheres negras evangélicas, ouço sobre o medo e a vergonha de falar sobre orixás e candomblé, por exemplo. Um desconhecimento profundo sobre o saber espiritual africano. Ouço sobre histórias de terror religioso envolvendo demônios, família, drogas e violências. Mulheres negras que foram evangelizadas a partir de um suposto evangelho que denunciaria uma suposta “maldição hereditária” vinda das religiões de África. Um apelo e reforço ao auto-ódio, com certeza.
Nesses aspectos somos vítimas. Desde as campanhas evangelizadoras da missão de porta a porta, nos programas de rádio e TV das igrejas, ou em canções e corinhos de fogo pentecostais, nos cultos de missões transculturais, ou nas aulas dos seminários teológicos, o combate e a demonização das memórias e saberes africanos mutilou e apagou toda a beleza e cura existentes no interior da história de famílias negras afro-brasileiras. Além disso, mantiveram escondidas e justificadas as violências e atrocidades que a igreja cristã (católica e evangélica) perpetrou contra esses povos.

Agora estamos aqui, muitas de nós alcançando graus elevados de escolarização e reeducação antirracista. Somos incapazes de olhar para o legado espiritual de nossas ancestrais sem sermos visitadas pelo incômodo, silenciamento ou vergonha.
Muitas de nós nem sabemos o que aconteceu com nossas famílias negras, em termos de fé e violência espiritual. Só sabemos que Jesus nos libertou de sermos “mulheres negras africanas” e nos tornou “mulheres virtuosas lavadas e remidas no sangue de Jesus”.
E aqui, eu não quero falar sobre batalha espiritual ou teologia do domínio. Quero apenas refletir como os nossos corpos femininos negros tem passado pela violência física, sexual e financeira e também pela violência espiritual/religiosa racista de geração em geração. Eu mesma sofri com as sessões de libertação espiritual, ainda na minha infância, quando minhas habilidades de sensibilidade energética ou espiritual foram nomeadas pela igreja como possessão demoníaca. Era como se eu tivesse que ser “purificada” para usar meus dons na igreja… a serviço da igreja, da religião cristã enquanto demonizava as origens daquele poder pessoal.

Veja, todas as nossa inteligências corpóreas-sensitivas, nossos dons espirituais transmitidos pela consciência antepassada, pela oralidade, pelas nossas avós e tias e mães, em cuidados diários e sabedorias, sofreram tanta perseguição e marginalização que não podem existir se não forem “sacralizadas” ou “exorcizadas” por meio de um dogma bíblico dito pela igreja, não é mesmo?
Para eles (religião cristã fundamentalista) não há outra solução senão reprimir, castrar e atrofiar nossos dons. Ou, para algumas denominações, “santificar e normatizar” a expressão corpórea do transe ou êxtase espiritual que sentimos.
Precisamos afirmar: Restringir o acesso à nossa memória e história ancestral é violência. Demonizar os sentidos que atribuímos às nossas experiências espirituais, é violência. Desqualificar a memória e os conhecimentos étnico-raciais de fé, é violência. Impor um único tipo de sentimento e sentido à experiências espirituais, é violência. Eliminar os símbolos e figura que transmitem sentido espiritual é violência. Violência é tudo que nos causa dano, dor, e sofrimento.
Eu penso nisso tudo com muito pesar. Por que nossa capacidade de recuperação de todas as ausências que a igreja institucionalizada nos furtou nos custa auto amor e memória. Nos custa imaginar D’us como uma mulher negra. Nos custa sentimentos persistentes de insuficiência e baixa autoestima. Nos custa vidas negras ceifadas pela violência doméstica, sexual e urbana. Nos custa a saúde e o bem estar de nossas famílias.
Diante de tanto custo social e afetivo, buscamos nas igrejas evangélicas uma nova história para nossa condição social e recebemos meias verdades fundada na em mentiras racistas sobre nós mesmas.
Me lembro de toda angústia que minha família interreligiosa passou por causa de um discurso de demonização de saberes ancestrais africanos. Qualquer contato ou diálogo com as práticas religiosas de matrizes africanas era inadmissível. Sem espaço para respeito genuíno, a postura de combate e proselitismo era a lei em nosso lar. Então, imagine quanto sofrimento essa violência nos causou… e as cicatrizes que carregamos em nossa saúde mental após 20 anos e até hoje.
Recentemente ouvi minhas irmãs negras durante o VI encontro de mulheres negras evangélicas e percebi como nossa demanda por recuperação da saúde (emocional e espiritual) é imperativa. Esse encontro foi marcado por intergeracionalidade poderosa e ativa e mesmo assim, mesmo com tantas partilhas de vivências de negritude, não me lembro em que tempo nos reservamos para falar sobre essa memória espiritual ancestral. Seguimos ignorando nossa ancestralidade espiritual e religiosa africana?
Esse tema faz parte das tantas urgências em nossa comunidade negra evangélica brasileira… E, antes que alguém levante o argumento, quase sempre individualista e liberal, de que somos pessoas livres para seguir a religião que quisermos, eu sugiro que pensemos nas condições de equidade racial que experimentamos no Brasil e na igreja evangélica brasileira que nos proporcionam um tipo de liberdade para “fazermos uma escolha de fé” sem viés de um cristianosmo compulsório….
Mas como nos encorajarmos?

Meu desejo é que abandonemos o medo colonial em nossa fé. Que possamos superar as barreiras mentais e simbólicas que nos separam do amor de nossas mais velhas que sobreviveram ao tumbeiro e que aqui resistiram através de suas fés. Estamos aqui porque a fé nos Orixás e em D’us sustentou nossas mães africanas.
Que possamos abandonar a postura de indiferença diante dos ensinamentos espirituais que nossos corpos carregam. Que haja espaço em nós para compreender que nossa cultura africana não é apenas sobre estética ou comida, mas sobre espiritualidade e conexão com os Sagrados de cor negra. Que sim, Deus é uma Mulher Negra e nos fez à sua imagem e semelhança e que esse poder e fonte de amor habita em nós de forma incondicional e digna.
Nota: Este ensaio é fruto de inquietações refletidas a partir da minha vivência no movimento de mulheres negras evangélícas, no serviço comunitário à frente da coordenação da rede de mulheres negras evangélicas e por último, a partir de reverberações da minha pesquisa doutoral sobre ativismo feminino negro evangélico entre 2023 e 2024.
Referências
Inspirada nas leituras dos livros God is a Black Woman da autora Chrsitina Cleveland, Introducing Womanista Theology da autora Stephanie Y. Mitchem e no livro Irmãs do Inhame, de bell hooks.
