Deus é uma mulher negra, pra quê? (parte 2)

A primeira vez que disse para mim mesma: acredito que Deus é uma mulher negra, parece que aquele processo doloroso de limpar feridas mal-curadas chegou para mim. Minha fé me chamou para chorar. Eu posso dizer que me contar algumas verdades desencadeou desestabilizações emocionais indesejadas e necessárias para minha auto-recuperação1.

Dessa vez, entre a usual busca sobre a face feminina negra de D’us, encontrei a canção “Deus é uma mulher preta” da cantora Jessica Gaspar (2018)2. Eu até fiquei surpresa e levemente irritada por não lembrar ter conhecido a música antes… (não consigo lembrar se tive acesso a ela antes desta escrita… um esquecimento até “previsível”, aliás, quem repercutiria uma música com esse título, não é verdade?! apenas “bolhas” de interessados iriam ventilar essa beleza – mas, bem, eu deveria ser uma pessoa interessada, enfim!).

Ouvi repetidas vezes na tentativa de esvaziar da minha mente aquela antiga interferência, das imagens de controle – do Deus (branco) – que me constrange e me lembra que eu não “presto” assim como a ideologia racista o faz. 

Pois então… A imagem de Deus como uma mulher preta não me constrange. Ela me acolhe, corresponde e empodera. Da canção, recebo como um som-eco da memória, ancestralidade e do amor que atravessou a tortura de Maafa e nos salva da máquina de moer cotidiana, nos curando dos adoecimentos do corpo e da alma… Segue um trecho:

“A morte atravessa o sonho de pretos aqui

Encaro e grito para o estado não saio daqui

Minha mãe me abençoe e dê forças para eu prosseguir

Seus olhos d’água

Refletem a força que mora em mim

Deus é uma mulher preta

E por natureza sei que vou sobreviver

Deus é uma mulher preta

Bença minha mãe para lutar e escreviver”

Ah! Os traumas que o racismo causa na gente, aspectos tratados pela psicóloga Grada Kilomba (2020)3 em sua obra recente, Memórias de Plantação, são permanentes mas mesmo assim tratáveis. Essa foi uma das leituras que “amarguei” como um merthiolate sob a ferida nesse ínterim de tempo desde o último texto… Antes dela, a Neusa Santos e o Franz Fanon também li-ouvi as advertências da verdade sobre os impactos sócio-psíquicos que o sistema racista nos impõe na vida. Teorizar a dor é uma coisa necessária… lembro das palavras de bell hooks em Ensinando a Transgredir…

E, a cada dia que se passa, em passos históricos lentos, tenho mais certeza que fé cristã em sua educação e práticas cotidianas, é intencional em minimizar os efeitos do racismo nas subjetividades das mulheres negras afro-brasileiras. Ao negar e demonizar uma imagem feminina e negra de Deus seguem sustentando uma prática de violência simbólica. 

E num prisma de autoresponsabilização, sem culpabilização mas como a incorporação de uma compromisso coletivo, eu penso mesmo que todas as irmãs negras afrodescendentes precisam se permitir perguntar sobre essa ausência de D’us Negra em nossas vidas simbólicas e religiosas… esse é um ato de fé e coragem. Nos permitir questionar porque não há uma revelação feminina e negra de Deus e sentir o desconforto e o medo que essa auto-autorização pode nos proporcionar diante do dogma milenar da instituição humana igreja…

Ou, até mesmo, para algumas de nós mais criticamente racializadas, quantas vezes eu partilhei essa inquietação com outras irmãs? Não podemos esquecer o quanto nos educamos umas às outras em nossas partilhas e diálogos. A espiritualidade é algo muito caro para nós e nosso povo, não podemos entregar nas mãos dos homens brancos esse poder sem provocar a reivindicação de nossa dignidade espiritual.

Como eu disse antes, a Teologia Negra4 amplia a possibilidade de olhar as discussões sobre essa violência, mas não a encerra. A Teologia Womanista e a Hermenêutica Feminina Negra(HFN)5 abriram um grande campo de recuperação espiritual para nós mulheres negras de ascendência africana na diáspora. Aprendi, a partir da HFN, que a minha conexão com o Sagrado é maior do que os limites e ensinamentos do protestantismo me doutrinaram. 

É claro, esse conhecimento também me foi transmitido de forma informal pelas mulheres periféricas frequentadoras assíduas de círculos de oração onde cresci. Elas já sabem que o entendimento e a Experiência com Deus não cabe no sermão do domingo… elas sabem que, mesmo tendo migrado da “religião africana”, o mistério de D’us excede todo entendimento… elas sabem o que é ouvir a voz de D’us no deserto diante da morte e da perda…

Podemos acessar em uma gama de saberes ancestrais passado de geração em geração pela nossa memória de ascendência africana, inscrita em nossos corpos, nossa subjetividade, isto ainda não foi totalmente aniquilado pelo epistemicídio branco no protestantismo brasileiro sobre nós.

E eu não poderia deixar de dizer que parte dessas reflexões são frutos da minha experiência comunitária… da minha participação nos movimentos de mulheres negras evangélicas nos últimos 6 anos me oportunizaram ver e ouvir dezenas de mulheres negras que, em diferentes níveis de letramento histórico e racial, expressam esse poder da ancestralidade africana. 

A Deus Negra está no meio de nós. Somos como o sal, que em pequena quantidade revela e  conserva o meio do apagamento total de nossa memória. Embora não tenhamos um vasto acervo literário escrito, o conjunto de experiências vividas no cotidiano faz a diferença em milhares de realidades locais. É quando meus pés pisam nesse lugar que se tornou difícil demais preservar as memórias de violência religiosa que sofri por ser uma menina negra na periferia de Recife.

Quando eu orei para a Deus(a) Negra, quando apliquei meu coração em abrir a caixa de pandora da minha história, precisei encarar os acontecimentos que me privaram de reconhecer Deus como um corpo feminino negro. A verdade que liberta do julgo da mentira. Ali encontrei a demonização de minha habilidade espiritual, dos meus dons de sensibilidade e percepção do Sagrado. Foi em um templo evangélico que aprendi que ser eu mesma era ruim demais para Deus e que o plano divino para minha vida era ser outra pessoa – branca – aos olhos da Igreja – e do Pai. Mas esse é um assunto para um outro texto.

  1. Estou usando o termo autorecuperação em referência ao conceito utilizado pela escritoa bell hook no livro Irmãs do Inhame onde a autora aborda esse tema de forma central sobre diversos aspectos da vida e saúde de mulheres negras. ↩︎
  2. Canção Deus é uma mulher preta: https://www.youtube.com/watch?v=GyYTmRakQdQ&pp=ygUUZGV1cyDDqSBtdWxoZXIgcHJldGE%3D ↩︎
  3. Livro da Grada Kilomba: Memórias da Plantação. Editora Cobogó. ↩︎
  4. Referências principais como autoras: Jacqueline Grant, ↩︎
  5. Recentemente foi lançado o livro Teologia Feminista Negra organizado pela teóloga Cleusa Caldeira (2023) pela Editora Vozes. ↩︎