A primeira vez que eu ouvi essa frase achei um tremendo exagero. Eu até me senti constrangida. Na minha mente, eu me perguntava: “por que tudo tem que ter a ver com negro?, por que eu não deveria encontrar satisfação em outras formas de representação de Deus (o Pai Nosso)?”. Essas perguntas vinham imediatamente na minha cabeça sem que eu tivesse um tempo para interrogar a mim mesma. Afinal, aprendi na igreja cristã e no espiritismo que não Deus não tinha sexo, nem cor, nem gênero, nem idade, nem corpo.
Era impronunciável e impensável ficar “criando” imagens d’Ele – que era o Pai. Quando eu tentava imaginar, sentia culpa e constrangimento. Era uma dura autovigilância. E eu confesso que eu preservei esse paradigma durante muitos anos – por lealdade aos ensinamentos que recebi ou por medo de ser recriminada.
Hoje eu me sinto aliviada por esses questionamentos terem sidos respondidos. A tal culpa e constrangimento perderam a força e a centralidade na imagem de Deus que habita minha mente. E isso não se deu da noite para o dia, mas é parte de um jornada pessoal de autoconhecimento e de conhecimento do mundo que me cerca, de uma postura e não ter medo de perguntar!
Ao aprofundar as informações sobre minha ascendência étnica-racial, e desmarcar a hipocrisia das instituições religiosas cristãs, a coragem foi ganhando força dentro de mim. Uma coragem que deu lugar ao sentimento de pertencimento e busca contínua pela verdade.
Eu percebi, já adulta, que considerar um exagero propor a ideia de Deus como uma mulher negra era fruto de inúmeros aprendizados que recebi ao longo da infância-juventude. Na escola, na igreja e no mercado de propaganda e comunicação. Aquela sólida opinião de que “não importa a cor e o sexo de Deus” só preservava aquela imagem do homem-branco-velho-barbudo – de uma história única contada repetidas vezes que desconsiderou a experiências sobre Deus de outros grupos da nossa humanidade.
Uma das vivências que me ajudou a repensar esse paradigma do deus-branco e estimular minha imaginação foi quando descobri a obra “A criação” da artística de ascendência afro-cubana Harmonia Rosales1. Nessa pintura, Harmonia reinterpreta o famoso quadro “A criação de Adão” de Michelangelo substituindo a imagem de homens brancos por mulheres negras. Nossa!!! Em toda a minha vida eu nunca ouvi alguém questionar o por quê de Michelangelo ter escolhido a imagem de um homem branco para representar Deus na narrativa da criação do mundo dessa maneira!!! – impronunciadamente naturalizado, normalizado e aceito!

Nesse momento, lembrei de um dia de oração pública do Coletivo Vozes Marias2, em Recife/PE. Lá por meados de 2015, o grupo realizou um encontro em uma praça pública e na ocasião declamamos a oração do “Pai Nosso” a partir da alegoria da “Mãe Nossa”. Eita! Eu estremecia toda. Pensava que vivia um momento revolucionário na minha vida. Porque eu sabia que na história das mulheres questionadoras, aquele momento era como um eco profundo, ressoando vozes através dos tempos, dos séculos – e que nunca se calará! Diante da ideia de uma Deusa ou Deus-Mãe muitos se iram e se tornam violentos.
Mas é isso, nada é perfeito. O processo de desnaturalização e mudança não é instantâneo nem isento de desconfortos e dores. A consciência de nós mesma é um dos pontos que considero mais importantes nas contribuições dos feminismos. Então eu insisti em perguntar a mim mesma: por que ao fechar meus olhos ainda resisto em elevar minha imaginação à Deus-Negra? Será auto-ódio? No meu subconsciente uma pessoa negra não teria condições de representar a criação, proteção, amor e poder? São perguntas que me faço sempre até que a inquietação dê lugar a plena aceitação, libertação e paz.
Entre essas perguntas, leituras e observações da vida, percebi que as pessoas brancas nunca demonstraram constrangimento ou temor por representarem Deus tal qual seu fenótipo – pessoa branca, de pele branca. É a norma. Nenhuma igreja cristã parece empenhada em tocar no assunto ou mesmo promover uma conscientização honesta. É tabu e quem questiona a respeito disso permanece ridicularizado, ignorado ou estigmatizado.
Diante dessa imensa lei do silêncio, rejeitar a discussão sobre o tema é minimizar conflitos “desnecessários” e manter a imagem do divino distante de corpos que foram “amaldiçoados pela história da igreja”.
Nas minhas leituras recentes de pesquisa, encontrei o livro God is a Black Woman3 (Deus é uma Mulher Negra) da psicóloga social e teóloga afro-americana Christena Cleveland4. Foi uma achado que atiça perguntas e provocam meu coração. Na obra, a autora aborda os impactos psicossociais de uma socialização marcada pelas imagens da supremacia branca na religião e na representação de Deus para a comuidade afroamericana. Com reflexões que visitam suas experiências pessoais, familiares e comunitárias, a autora sublinha a necessidade e importância das representações feminina negra no âmbito do sagrado e da espiritualidade.

Ou seja, há no sistema de dominação que vivenciamos hoje uma intenção estabelecida de evitar que as pessoas negras se reconheçam numa figura feminina e negra de Deus. Isso seria empoderar pessoas que precisam ser mantidas psicologicamente adoecidas e socialmente menosprezadas e invisibilizadas em seu valor humano.
Em termos de Brasil, até agora, não há literatura e bibliografias religiosas robustas sobre o assunto. E as teologias feministas e a hermenêutica feminina negra na América Latina e fora dela têm feito um trabalho árduo e histórico de resistência das mulheres no e sobre o Sagrado e Deus. As nossas experiências de mulheres negras são múltiplas. Sabemos que o racismo atravessa os aspectos negativos e positivos da resistência de nossas vidas femininas negras e comunitárias. Chegamos na fase adulta da vida marcadas por cicatrizes e feridas abertas causadas pelo racismo. Por isso o cuidado e a reparação são inegociáveis e precisam ser contínuos em nossas vidas. E isso envolve nossa espiritualidade e a maneira como inventamos a religião.
Pode ser que a imagem feminina negra de Deus não aniquile de uma só vez todas as nossas dores psíquicas e subjetivas. Mas com certeza ela nos proporciona a possibilidade de cura, autoaceitação e autoamor. Da recuperação da autoafirmamos nossa essência humana digna enquanto pessoas negras e que nos foi furtada por um tipo cristianismo maculado pela ganância de poder e pela prática sistemática de fratricídio.
Notas
- Conheça mais sobre a artista: https://www.harmoniarosales.art/ ↩︎
- Conheça mais sobre o coletivo: https://www.youtube.com/watch?v=JlngYHx4X_M&pp=ygUVY29sZXRpdm8gdm96ZXMgbWFyaWFz ↩︎
- Site para compra do livre: https://www.amazon.com.br/God-Black-Woman-Christena-Cleveland/dp/0062988786 ↩︎
- Conheça mais a pesquisadora: https://www.christenacleveland.com/ ↩︎
